LIBER CAUSÆ (Liber LXI, 1909, Classe D)
MARCADORES: 1909, Liber LXI, Classe D, Estudante dos Mistérios
Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.
Também são mencionados aspectos pessoais dos magistas que iniciaram a Golden Dawn, bem como o processo iniciático que Crowley e Jones vivenciaram para fundar a A∴A∴. Independentemente de ser verificável ou não, a estruturação feita por meio dessa narrativa estabelece o entendimento indispensável para que os demais conceitos da Santa Ordem sejam assentados.
Abaixo, seguem algumas considerações acerca de trechos do Liber Causæ. Ressalto que a letra do texto é clara; logo, abordar o que já se apresenta evidente talvez seja apenas redundância. Portanto, as reflexões aqui expostas são feitas à luz do conhecimento e da tecnologia atuais, situadas em um momento do Novo Aeon que conta com amadurecimentos ainda inexistentes na época em que a Lei foi trazida.
“No princípio havia a Iniciação. A carne em nada se aproveita; a mente em nada se aproveita; aquilo que é desconhecido para ti e está acima destes, enquanto firmemente baseado em seu equilíbrio, dá a vida”.
O ímpeto, a vida e a vontade estão fora do aspecto ordinário e biológico, embora ancorados neles, tal como o Espírito anima a Matéria.
“Em todos os sistemas de religião deve-se encontrar um sistema de Iniciação, que pode ser definido como o processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida”.
Aprender a respeito da Unidade. Ainda que se esteja inserido em um sistema religioso, é preciso alinhar-se com o que conduz à Coroa.
“Ninguém pode comunicar o conhecimento ou o poder para alcançar isso, que podemos chamar de Grande Obra, mas é possível que iniciados guiem os outros”.
Se alguém lhe falar apenas em palavras, talvez o véu se torne ainda mais espesso. É preciso sentir, viver e passar pelo processo. Qual processo? Desejo que você possa percebê-lo ao vivenciá-lo, sem a obsessão de descrever a outrem o que pertence apenas ao seu caminho.
“Todo homem deve superar seus próprios obstáculos, expor suas próprias ilusões. Outros, porém, podem ajudá-lo a fazer essas duas coisas, e podem capacitá-lo a evitar muitos dos falsos caminhos que não levam a lugar nenhum, que tentam os pés cansados do peregrino não iniciado. Eles podem ainda assegurar que ele seja devidamente provado e testado, pois há muitos que se consideram Mestres que nem sequer começaram a trilhar o Caminho de Serviço que conduz até lá”.
À luz do Novo Aeon, pense num contexto didático e pedagógico: a Ética da Psicanálise e a Ética da Psicologia Analítica. Considere a imersão de autoconhecimento em ambas. Talvez sejam possibilidades de, por meio do conhecido (Inconsciente, Mecanismos de Defesa do Ego, Inconsciente Coletivo, conciliação entre consciente e inconsciente), chegar ao Desconhecido (aquela Coroa) e laborar a Grande Obra.
“Agora, a Grande Obra é uma, e a Iniciação é uma, e a Recompensa é uma, por mais diversos que sejam os símbolos pelos quais o Indizível é vestido”.
Ave Ararita! Onde o Ouro Sêxtuplo é derretido em um único Ponto Invisível!
“Aqui, portanto, fazemos uma pausa, para que você possa examinar a si mesmo completamente e considerar se você está preparado para dar um passo irrevogável. Pois a leitura do que segue é Registrada”.
Alguém que não esteja em ressonância com o Novo Aeon e avançado nos Graus da Árvore da Vida estaria em condições de tal comprometimento? Ou seria como uma criança que diz querer algo que não lhe compete discernir?
“… o conhecimento se mostrou sem valor, mesmo onde estava correto: pois é em vão que pérolas, mesmo que sejam tão claras e preciosas, são dadas aos porcos”.
É de se pensar o motivo de algumas coisas serem veladas. Assim como, ainda hoje, falar de libido e sexualidade pode ser danoso para algumas pessoas; por vezes, é melhor manter o véu e tratar do assunto apenas após um processo de desmistificação de tabus.
“Os ordálios foram menosprezados, sendo impossível qualquer um falhar neles. Candidatos inadequados foram admitidos sem uma razão melhor do que a de sua prosperidade mundana”.
Observa-se aqui que alguns ordálios talvez fossem "artificiais". Seria mesmo necessário criá-los, ou bastaria a didática para organizar os ordálios que surgem espontaneamente?
“Ele descobriu que S.R.M.D., embora um estudioso de alguma habilidade e um magista de poderes notáveis, nunca alcançou a iniciação completa: e ainda tinha caído de seu posto original, por atrair imprudentemente para si forças do mal grandes demais e terríveis demais para resistir”.
É possível observar esse "mal grande demais" sob a ótica do conhecimento atual sobre saúde mental, como delírios, alucinações e esquizofrenia, que podem ser agravados por estímulos e reações em ciclos fechados de conteúdos abstratos. Fora desse ciclo, algo do plano regular traria o aterramento necessário para evitar transtornos psiquiátricos graves.
“Ele mesmo não sendo um adepto perfeito, foi conduzido pelo Espírito ao Deserto, onde permaneceu por seis anos, estudando à luz da razão os livros sagrados e os sistemas secretos de iniciação de todos os países e épocas”.
Seis anos foi o período que Crowley levou para a Ascensão. Percebemos aqui uma narrativa como exemplo de resiliência: Crowley que já era um magista notável, ao percorrer caminhos em busca de ascensão, a caminhada não foi imediatista.
“Finalmente, foi-lhe dado um certo grau exaltado pelo qual um homem se torna mestre do conhecimento e da inteligência, e não mais seu escravo. Ele percebeu a insuficiência da ciência, da filosofia e da religião; e expôs a natureza autocontraditória da faculdade do pensamento”.
Esta talvez seja a ação mais pragmática de Crowley: descrever de maneira lírica e com rastros culturais a consciência humana e suas muletas.
“Então, esses dois adeptos debateram dizendo: Não pode ser escrito que as tribulações serão encurtadas? Por isso eles resolveram estabelecer uma nova Ordem que deveria estar livre dos erros e enganos da anterior”.
Observa-se que a A∴A∴ surgiu, de fato, para se sobrepor à Golden Dawn, ou melhor, para ser a Ordem legítima que emana diretamente da fonte.
“Portanto, por ordem de D.D.S, P. preparou todas as coisas por sua ciência e sabedoria arcanas, escolhendo apenas aqueles símbolos que eram comuns a todos os sistemas, e rejeitando rigorosamente todos os nomes e palavras que poderiam implicar qualquer teoria religiosa ou metafísica...”
Como consta em alguns textos, as palavras e panteões em uso carregavam conceitos prévios, e não era desejável que tal associação fosse mantida.
“Deliberadamente, portanto, ele se refugiou na indefinição. Não para esconder a verdade do Neófito, mas para adverti-lo contra a valorização de coisas que não são essenciais...”
Noten a referência indireta ao mencionar "homem P.", escrita com a inicial minúscula.
“Ao procurar revelar o Arcano; nós apenas o profanamos”.
“... eles foram admitidos na Ordem Eterna e Invisível que não tem nome entre os homens”.
Uma Ordem Eterna e Invisível, sem nome entre os homens.
“Portanto, eles, que com rostos sorridentes abandonaram seus lares, suas posses, suas esposas e seus filhos para realizar a Grande Obra, puderam com constante calma e firme retidão abandonar a própria Grande Obra: pois este é o último e o maior projeto do alquimista”.
Num primeiro momento, esse conceito de abandono e sacrifício remete aos Aeons Antigos e ao "Deus Sacrificado"; também sugere fugas. Sobre abandonar a própria Grande Obra: seria em prol de quê? Da Ordem Eterna e Invisível? Olhando de cima, faz sentido; olhando de baixo, parece uma fuga da realidade estruturada.
“Tais são o Liber Legis, Liber Cordis Cincti Serpente, Liber Liberi vel Lapidis Lazuli e outros... Tome cuidado para não os interpretar seja na Luz ou na escuridão, pois somente em L.V.X. eles podem ser compreendidos”.
Seria de grande relevância descrever o que seriam Nox e LVX; talvez uma definição autoral fosse viável aqui.
“Pois a Perfeição não habita nos Pináculos ou nas Fundações, mas sim na Harmonia ordenada de um com o todo”.
Veja-se algo fundamental: a harmonia do um com o todo.

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